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Alexander Zverev e a Longa Estrada da Resiliência

Por Mara Rute Lima Hercelin

Existem vitórias que valem um troféu e existem vitórias que contam uma história. A conquista de Alexander Zverev em Roland-Garros pertence à segunda categoria.

Hoje, ao vê-lo finalmente erguer a taça dos Mosqueteiros, não consegui deixar de voltar no tempo. Minha memória me levou aos anos em que vivi Roland-Garros de diferentes formas: primeiro como espectadora apaixonada pelo esporte, depois como alguém que teve a oportunidade de trabalhar nos bastidores daquele que é um dos maiores eventos esportivos do mundo. Entre uma atividade e outra, ouvindo conversas nos corredores, observando atletas, equipes, patrocinadores e voluntários, era impossível não ouvir o nome de um jovem alemão que muitos acreditavam estar destinado às maiores conquistas do tênis mundial.

Naquele momento, porém, meu coração ainda batia mais forte por Rafael Nadal. Para a minha geração, Nadal representava muito mais do que um tenista extraordinário. Ele simbolizava disciplina, humildade, perseverança e uma capacidade quase sobrenatural de superar limites. Roland-Garros parecia ser sua casa, e cada vez que entrava em quadra na Philippe-Chatrier, tínhamos a sensação de assistir a algo que dificilmente se repetiria na história do esporte.

Foi justamente nesse contexto que Alexander Zverev entrou para a minha memória afetiva de Roland-Garros.

A semifinal de 2022 entre Nadal e Zverev foi uma das partidas mais intensas e emocionantes que já presenciei. O nível técnico era impressionante. Os dois atletas disputavam cada ponto como se fosse o último, oferecendo ao público um espetáculo digno da história do torneio. Então, de forma abrupta e cruel, o destino interveio. Zverev sofreu uma grave lesão no tornozelo diante de milhares de espectadores e precisou abandonar a partida em uma cadeira de rodas. Os gritos de dor ecoaram pela Philippe-Chatrier e marcaram profundamente todos aqueles que estavam presentes naquele dia.

Nadal seguiria rumo ao título, conquistando o que seria sua última vitória em Roland-Garros e também seu último Grand Slam. No entanto, olhando para trás, percebo que aquela não era apenas a história da despedida de um campeão. Era também o início silencioso da longa caminhada de outro.

Naquele momento, muitos enxergaram apenas uma derrota. Hoje sabemos que aquela lesão representou apenas uma pedra no caminho de alguém que se recusaria a abandonar seus sonhos.

A recuperação de Zverev exigiu algo que raramente aparece nas estatísticas esportivas: paciência. Foram meses de fisioterapia, incertezas, dores, dúvidas e recomeços. Um atleta acostumado a disputar finais precisou reaprender a confiar no próprio corpo, reconstruindo não apenas sua condição física, mas também sua confiança emocional.

O que mais impressiona em sua trajetória é que ele continuou avançando quando seria compreensível desistir. Continuou treinando quando os resultados demoravam a aparecer. Continuou competindo quando novas gerações surgiam. Continuou acreditando quando muitos já haviam deixado de acreditar.

Por isso, sua vitória transcende o esporte.

Aos 29 anos, depois de enfrentar derrotas dolorosas, conviver com críticas constantes e carregar por anos o rótulo de “melhor jogador sem um Grand Slam”, Alexander Zverev finalmente escreveu seu nome na história do tênis ao conquistar Roland-Garros 2026.

Para quem trabalha com educação, desenvolvimento sustentável e juventudes, essa conquista possui um significado ainda mais profundo. Há quatro anos, vi um atleta deixar a quadra carregando uma dor física imensa. Hoje, vi esse mesmo atleta cair novamente sobre a terra batida parisiense, mas desta vez como vencedor, abraçado pela emoção de quem transformou sofrimento em conquista.

Falamos frequentemente sobre resiliência em nossas pesquisas, projetos e políticas públicas. Contudo, poucas vezes vemos esse conceito materializado de maneira tão clara. Resiliência não significa evitar quedas. Resiliência significa encontrar forças para continuar depois delas.

Talvez seja justamente por isso que eventos como Roland-Garros continuem sendo tão importantes. Eles não celebram apenas campeões. Eles contam histórias humanas capazes de inspirar milhões de jovens em diferentes partes do mundo.

Quando observamos os parceiros históricos do torneio, percebemos que cada um deles também transmite uma mensagem simbólica. A BNP Paribas investe há décadas na democratização do acesso ao esporte e no desenvolvimento de novas gerações. A Rolex, por sua vez, construiu sua identidade em torno de uma ideia simples e poderosa: a excelência não acontece da noite para o dia. Sua filosofia de marca lembra constantemente que as maiores conquistas são fruto de tempo, consistência e perseverança. Em outras palavras, o tempo recompensa aqueles que continuam avançando quando seria mais fácil parar.

Ao olhar para o futuro, acredito que podemos fazer ainda mais. Podemos criar mais oportunidades para jovens, fortalecer pontes entre esporte e educação, ampliar o acesso à cultura esportiva e utilizar eventos globais como este para promover valores ligados à Agenda 2030. O esporte continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para inspirar liderança, inclusão e transformação social.

Sei que, neste ano, muitas vozes questionaram os rumos de Roland-Garros. Para alguns, o torneio estaria se transformando em uma passarela de moda. Para outros, em um palco para influenciadores digitais e estratégias de comunicação. Mas, ao observar a emoção genuína desta final, fica evidente que Roland-Garros permanece fiel ao seu DNA mais profundo.

Desde sua origem, o torneio nunca foi apenas sobre tênis. Sempre foi sobre histórias humanas. Sobre coragem diante da adversidade. Sobre disciplina diante do impossível. Sobre a capacidade de recomeçar quando tudo parece perdido.

As câmeras passam. As tendências passam. As celebridades passam. O que permanece é aquilo que tornou Roland-Garros uma referência mundial durante mais de um século: a celebração do esforço, da perseverança e da extraordinária capacidade humana de transformar obstáculos em conquistas.

Meu primeiro Roland-Garros também foi histórico. Foi a edição marcada pela pandemia, quando Rafael Nadal derrotou Novak Djokovic e conquistou seu décimo terceiro título em Paris, enquanto Iga Świątek iniciava sua própria trajetória lendária ao vencer seu primeiro Grand Slam. Anos depois, testemunhei a última campanha vitoriosa de Nadal em Roland-Garros e acompanhei o momento em que Zverev deixou aquela mesma quadra lesionado.

Hoje, ao vê-lo erguer a taça, compreendo melhor a mensagem que o próprio torneio nos oferece. O esporte não é apenas sobre quem vence hoje. É sobre quem encontra forças para voltar amanhã.

Que possamos chegar a 2027 construindo novas histórias, ampliando oportunidades e garantindo que mais jovens tenham acesso não apenas ao esporte de alto nível, mas também aos valores que ele transmite. Porque algumas vitórias começam exatamente no dia em que pensamos ter perdido tudo. E porque a verdadeira grandeza não está em nunca cair, mas em ter coragem para se levantar mais uma vez.

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